Andréia Horta: “Na adolescência tinha o cabelo curto como Elis”

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No Dia da Mulher um retrato da imensa Elis Regina em antestreia em Lisboa, no encerramento do Festin. Elis, de Hugo Prata, passa esta noite em sessão aberta ao público no São Jorge e o DN falou com Andréia Horta, a espantosa atriz que deu corpo e alma à maior cantora do Brasil.

Não deixa de ser simbólico Elis, a cinebiografia sobre Elis Regina, ser exibido no fecho do Festin em pleno dia da mulher…

Sim! E não deixa de ser simbólico eu ter 33 anos e a Elis ter morrido com 36…

Costuma-se dizer “a vida daquela pessoa dava um filme”. No caso de Elis havia mesmo material para o chamado biopic clássico.

Sim. Morreu cedo mas como viveu! Tal como Maria Callas, Elis é daquelas mulheres com uma vida muito intensa. Mulheres que fizeram o que quiseram, senhoras dos seus próprios desejos. É isso que marca e que pode dar um filme. O nosso, Elis, é sobre alguém sem qualquer ímpeto de defesa! O seu ímpeto é de fúria. A sua vida tem todos os ingredientes de ações de vida que dão uma grande história. Mas, no meu caso, eu nasci um ano depois de ela morrer, posso dizer que sempre fui fã. Na minha adolescência cheguei a ter o cabelo curtinho para a imitar!

O realizador do filme já disse que não quis contar a história da vida de Elis, mas sim uma história. Qual então esta história?

Pois, o filme não abarca nem metade da sua vida. O que o Hugo Prata optou por fazer foi um recorte, pois não houve tempo, por exemplo, de metermos a sua relação com o Milton Nascimento ou a gravação de um dos melhores discos da música brasileira feito com o Jobim e Tom. Contar a sua vida dos 19 aos 36 anos em duas horas era impossível… Há que fazer escolhas.

Como é que o Brasil reagiu ao filme? Criou debate?

Nós no Brasil temos um problema com a relação com a memória da cultura e da história. Há uma questão nevrálgica com a educação. Fala-se muito sobre o que a escola te ensina para a vida… E o grande problema é a nossa memória com o passado. A geração depois da minha não conhece a Elis.

Mas quer conhecer?

Sim, quer. O que se passou com este filme é que levou muita dessa garotada aos cinemas com os pais. Pais esses que tinham ido aos concertos da Elis. Isso foi maravilhoso. A geração que cresceu com Elis reagiu muito bem ao filme, choraram muito nas sessões – recebia sms de gente a chorar. É uma obra que mexe com a memória. E, quando pegamos a vida de alguém muito intimamente, o processo fica sempre muito tocante. Eu própria chorei com o livro biográfico que escreveram sobre ela. As grandes biografias têm esse condão.

Lembro-me de ver a Andréia Horta a visionar o filme na sessão de abertura do Festival Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira e a ficar emocionada…

Hoje, no São Jorge, vou revê-lo inteirinho mais uma vez! Cada vez que o vejo é sempre uma viagem inédita! Em agosto, no Festival de Gramado, foi a primeira vez que o vi em público e foi uma onda! Toca imenso, que loucura! O que aconteceu naquela ovação é algo que nunca mais vou esquecer na minha vida. Para mim foi uma verdadeira glória. Não sabia o que era glória, era isto… ver as pessoas a gostar, a aplaudir de pé. Compreendi que era uma recompensa muito valiosa do meu trabalho.

O que vai levar do exemplo de Elis Regina para o futuro da sua vida artística?

Ficou o mais fundamental para um artista: a importância das nossas escolhas. Essa foi a maior herança que ficou para mim. Tem que ver com a aquela pergunta: o que escolhes fazer do artista que és? É perceber o que essas escolhas vão fazer de ti…

E isso é de uma enorme responsabilidade, não é?

Claro. Ser artista é uma responsabilidade.

Escolhas que não podem ser feitas de ânimo leve.

Sim, mais do que isso temos de escolher sobre o que estamos a falar, sobre o que estamos a contar. É importante escolher a obra que se vai deixar.

A propósito disso, vamos continuar a vê-la em cinema?

Não sei ainda. Neste momento estamos a conversar aí sobre um filme mas ainda não posso contar nada. Seja como for, espero que o cinema venha até mim, espero que agora nunca mais pare.

A Andréia é uma atriz da Globo. No Brasil sente-se que há um certo preconceito contra os filmes que têm o logo da Globo Filmes. Há muita imprensa a falar em “cinema televisivo”. Elis terá sido vítima desse preconceito…

Esse preconceito está a mudar, creio. Dentro da Globo Filmes há uma curadoria muito interessante, sobretudo no sentido de se pensar quais as histórias que devem ser contadas. Com o Elis não há motivo algum para haver preconceito. Sou contratada da Globo há sete anos e sinto que o preconceito existe alastrado em milhões de cantos… Há o preconceito com aquilo que é popular. Às vezes aquilo que é popular quer dizer que é povo e que leva o povo a ir ao cinema, coisa tão importante.

Fonte: DN

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